segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Propaganda persistente


Propaganda é uma coisa delicada. Tive agência durante muitos anos e sei das dificuldades. Comunicação em massa.
Presto muita atenção até hoje e critico. Agora como consumidor.

Grita em minha cabeça a propaganda de remédio:

AO PERSISTIREM OS SINTOMAS O MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO.

Esta frase é um crime contra o próprio produto. Por um pequeno detalhe, um “O”, de “AO”. Ao dizer isso, está determinando que os sintomas vão persistir. É o mesmo que dizer “QUANDO PERSISTIREM OS SINTOMAS...”. É como que dissessem que eles sabem que o remédio não serve pra nada mesmo, e, quando os sintomas persistirem, o que eles já sabem que ocorrerá, aí sim, um médico de verdade, que resolve, deve ser procurado. Querem dizer: "A PERSISTIREM...". Mas não sabem, coitadinhos. Eles não sabem escrever... Ganham milhões e não sabem escrever... Simples assim.

Por estas e por outras, (como também “ABAIXAMOS OS PREÇOS” – eles continuam altos, mas agora na prateleira de baixo - e não “BAIXAMOS OS PREÇOS”, como querem realmente dizer) é que me reviro na cama com a propaganda brasileira, tão falada e premiada por aí.

Os gringos não sabem falar português. É isso aí.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Seu Antônio S/A

Antônio Aparecido de Godoi

Ele é magro, muito magro. Voz grossa do interior. Lá de Amparo. Mãos grandes, desproporcionais. O nariz, nem se fala. Baixinho de fala macia, bonezinho na cabeça. Empreiteiro de pequenas obras, cobra por dia e trabalha direito. Este é o seu Antônio.

Lata de 18 litros de tinta ele carrega sem problema algum. Pinta o teto o dia inteiro, esforçado. Às vezes, de tão concentrado, nem escuta o que a gente diz.

“-Seu Arnaldo: vou fazer os recortes!” – aquele sotaque inconfundível.

Vai fazer cinco dias que este amigo de 67 anos, que parece ter menos, está aqui com a gente. Diz que só bebe aos fins de semana e eu acredito. Ele sai às cinco da manhã de casa – de ressaca não se faz isso.

Disse, brincando, a um amigo publicitário que pintor bebe muito, muito mesmo.
Ele respondeu: “-Estou na profissão errada, então.”

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Foi cômico.

Luis Fernando Veríssimo

Fui dar um Google, curioso: “Cômicas crônicas”
Pronto. Ninguém menos. Luis Fernando Veríssimo com um blog,  “Crônicas cômicas”, o inverso.

Puts, pensei.

Por um lado orgulhoso, idéia parecida com a dele, por outro preocupado, idéia parecida com a dele. Só que tive depois dele, entendeu?

Bom, resolvi não esquentar porque me preocupo mais com meu caráter do que com minha reputação. Eu sei que não copiei. Odeio cópia. Sou ferozmente contra, quando se trata de direito autoral. Criei um slogan para uma conveniência gráfica, uma vez:  
Fiel à imagem. Leal a você. Defendia a qualidade da cópia com lealdade ao autor.

Ainda mais sendo este um dos caras que eu adoro. Ele é muito bom.

Merece colocar seu link: http://lfverissimo.blogspot.com/

Tragicômico? Irônico, isso sim.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A falsidade do século 21


A chuva de comunicação. Unilateral. Eles ( Net, Vivo, Dell – por exemplo) estão na minha e na sua mentes. Hospedaram-se nelas e de lá não saem. Tem musiquinha, tem propaganda, tem promoção. Eles ficam falando conosco o dia inteiro, do jeito que puderem. Fazem fila para nos vender. Surge até chat ao vivo com gente especializada... Incrível e fascinante mesmo, na hora da compra.

Acabam nos convencendo, né?

Tudo bem, vamos lá. Compramos.

De repente o canal não pega, o telefone não atende, o notebook não funciona. Precisamos inverter o canal de comunicação. Deve ser fácil falar com quem fala comigo toda hora, imaginamos. Eles estão em todo lugar, não é mesmo?

Surge a fila para eles nos atenderem.

É o efeito "enganei um bobo, na casca do ovo".
Como pode ser tão difícil falar com quem vive falando conosco? Eles só falam e não escutam?

Eis que descobrimos o quão exigentes nossos sedutores são. Agora somos deles, devem pensar. Pra que se preocupar? Começa a seleção: torcedores do Flamengo, tecle 1, se quer comprar um Vivo ou Morto, tecle 2, para Internet por Banda de música, tecle 3, para Chiclete com Banana no Natal, tecle raiz de 6x3/7 – 1. Para desesperados, mas nem tanto, tecle 4...

Exigentes, nossos fornecedores. Eles são muito exigentes.

Sem falar no humor dos atendentes, que derrubam a linha com técnicas profissionais, caso não nos comportemos.
Estamos nas mãos dessa nova classe de mão-de obra. O telemarketing "receptivo".
Trabalham para não trabalhar, "criativos". Inventam jeitos de desligar e não serem pegos.

Fantástico.

Cuidado, eles são geniosos, viu?

Isso me lembra a piada do inferno.

O sujeito morreu e foi ver onde queria morar. Testou o Céu, tudo calmo, gente de branco, meditando, música clássica, céu azul, meio careta, até.

Lá no inferno a mulherada de fio dental, música bombando, uísque com Red Bull rolando solto, a maior algazarra. Muito bom.

O cara, é lógico, escolheu o inferno.

Acordou no dia seguinte e estava algemado numa fornalha, sendo chicoteado e obrigado a trabalhar. Se esfalfar.

“-Mas e as mulheres, a música, o clima todo? Estava tudo tão bom...”

Ontem você era prospect, amigo. Hoje você é cliente - respondem.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Só pra dizer oi


“-Oi, tudo bem?”

Por que será que a gente pergunta se na verdade não quer mesmo saber?
Na verdade a gente quer saber se nada de muito errado está acontecendo. Se escutamos um simples “-Tudo bem.” está resolvido.
E tem gente que leva a pergunta a sério e responde os porquês do sim ou do não. Daí dá vontade de cobrar aluguel da nossa orelha, porque a pessoa vai longe.
Uma pergunta retórica, que não espera resposta, na verdade. Um ritual que garante que, mesmo com os problemas que todos temos, sabemos que tudo anda bem. Sob controle.
“-Oi, tudo bem?
-Bem, e você?
-Tudo jóia...
-Então tá bom.”

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Uma dica do mercado financeiro


Meu pai morreu cedo. De uma forma relativamente repentina.
Notei que, como outras pessoas, acabei exercendo uma profissão que protege as pessoas deste tipo de risco, assim como vejo o cadeirante defendendo sua classe, por exemplo. Ser consultor financeiro traz uma grata sensação de contribuição. Pensando na prosperidade das pessoas que me rodeiam, tento lhes ajudar, dando algumas dicas.

A diferença entre renda variável e renda fixa:

Muita gente confunde o lugar onde o risco está. Estas duas formas de alocação de recursos têm relação direta com o prazo em que ficarão alocadas. Vamos chamá-las de veículos.
Se você vai a Londres, não usará um táxi, concorda? Se você vai à Avenida Paulista, não pegará um avião. Esta é uma boa metáfora.

Muitos pensam que investir em ações é arriscado. Depende. Se for precisar do dinheiro num prazo curto, pode apostar que é arriscado, sim. Seria como ir de avião à Paulista. Mas, no longo prazo, a renda variável, ações, sempre foi mais rentável num intervalo de sete anos, desde quando a Bolsa surgiu.
Renda fixa serve para se guardar dinheiro do dia-a-dia e de emergência (um caso de demissão ou necessidade familiar, por exemplo).
O dinheiro que você está reservando para sua aposentadoria precisa render e pode se expor mais à volatilidade da renda variável para crescer mais.

A renda fixa no longo prazo é arriscada, pois tende à estagnação financeira, tende a render menos. É como que se você fosse de táxi para a Bahia, por exemplo.

Fica a dica pra quem quer se organizar.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Amor - versão do internauta


Vestiu seu melhor boot. Gastando todos os cartuchos, imprimiu mais ritmo no passo. Não ia ficar de A4, lá no Office. Todos iam ver. Ela estava computador de cabeça. Seria uma senha? Estava desconfigurada, mesmo. Não era vírus também. Estava de IBM, e era pré-datada.
Pensou em convidá-la para um mergulho, mas estava Samsung. Control, Alt, Dell esta idéia. Uma Photoshop naquelas máquinas e depois sorvete? Mas o shopping estava fechado... Reiniciou seu raciocínio. 
Um segundo e-mail depois aparece um mouse correndo pela sala. Ela gritou. Ficou com dor no Adobe, até.

“-Que coisa chat!” , pensou. O bicho fugiu por uma das Windows, feito um Flash Player. Mas ela percebeu que seria salva. Salva como? Ele já estava com as ferramentas.

Com seu tipo itálico, um New Roman, muito viril, a salvaria. Na verdade ele era apenas um Messenger, aspirante a Driver. Nunca Steve em outros Jobs. Ela do diretório. Skype era o limite para ela. Um amor quase impossível. Precisava de uma Declaração de Privacidade, sabia. Que ninguém Note, pensou. Era o único atalho para a área de trabalho, ambiente selecionado.

Olhou em seus olhos.

Click! Yahoo! Ele ficou meio Google, sem falar direito, quando enviou a mensagem, arriscando perder tudo. Quase travou, mas, numa arroba de paixão, estava na nuvem. 

Mas ela não perdeu o sinal. Fariam seu primeiro programa.

Histórias do Benga - 4, Acarajé no Kilt


Depois da balada no O Ponto, uma boate de coroas nos Jardins, a gente ia comer acarajé que uma baiana fazia na porta do Kilt, boate de profissionais do amor, no centro.
Era muito bom este quitute, principalmente depois de se tomar muito uísque a noite inteira. E lá íamos nós, de fogo, é verdade, pra Nestor Pestana, na madrugada do dia 25 de janeiro de 1.984, segundo o Julio Saba, que ia guiando.

Eu sei que depois de comer uns dois ou três, apaguei sentado no banco do Fiat branco que ele tinha. Ele também comeu e voltou para o carro para irmos embora. Estava amanhecendo.Uns minutos depois, abri um olho e vi que estávamos na 23 de maio. Fechei de novo e, de repente, o carro começou a ziguezaguear e cantar pneu. Eu, relutante em acreditar que precisava acordar, vi que a coisa estava séria, pois íamos capotar. Só deu tempo de proteger a cabeça. Capotamos.

O carro deslizou uns metros e parou de ponta-cabeça na avenida.
Já acordado, pulei fora dele e vi que o Julio, meio dormindo, não saía. Puxei-o pela gola da camisa e o tirei pela frente do carro, já sem vidro. Aquilo podia explodir, pensei. O sonho virou pesadelo.

Começamos a recolher o que era nosso do carro, chateados. O Julio blasfemava.
Eis que surge a polícia, achando que o carro não era nosso e que estávamos a depená-lo, como saqueadores.
O policial inquirindo e o Julio dizendo que era sobrinho do Maluf, e eu dizendo que era brincadeira dele pro guarda. Foi uma saia justa.

Minha mão saiu esfolada. As costas dele também, do momento em que o puxei pra fora. A minha chave de casa ficou entre o carro e o asfalto e dissolveu um pouco.
Coitada da minha mãe, Dona Therezinha.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

I'll be back


“-O shopping agradece. Volte sempre.” Pronto. Fiquei cabreiro. Levanta a cancela e saio com o carro, pensativo, e começo a simular a discussão.
Imagino que o inventor desta frase seja espírita – com todo respeito a eles.
“-Volte sempre.”
Lamento. Não será pra sempre que voltarei aqui.
Tenho consciência de minha finitude aqui na Terra. Não posso me comprometer a fazer uma coisa que eu tenho absoluta certeza de que não cumprirei. Tenho palavra.
Portanto quando ouço aquele “volte sempre” me sinto enganado. Fica no ar uma promessa de possibilidade irreal de um “sempre” que não existe. Ilusão pura, como toda a parafernália que nos envolve no consumismo.
Falando nisso, preciso voltar lá.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Quem deseja deseja


E se eu ligo e perguntam:

“-Quem deseja?”

“-Depende do que, amoreco. Eu te desejo, com esta vozinha. Você deve ser saborosa.”

Ou,

“-Deseja quem sente desejo. Agora, por exemplo, desejo desligar o telefone correndo e ir chorar sozinho.”

“-Quem deseja??”, já irritada, porque não “entendi” seu dialeto:

"-Eu. Tudo de bom.”